Mirror illusion

Do sonho à realidade

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Aí você pensa: “Nossa! O que foi isso?” – mas não consegue descobrir o que é. A voz não tem som, mas ainda assim é como se você tivesse sido abordado de perto por um conhecido. Você não tem nada que prove que isso aconteceu, mas não pode parar de pensar nisso. “Por que eu precisaria acordar?” – você se pergunta. “Eu nem estava dormindo!”.

É. Mas o mundo já não é o mesmo. Agora você está olhando para as coisas de maneira diferente: a rotina desapareceu completamente e sua vida está cheia de questionamentos.

Uma experiência dessas realmente é possível. É bem parecida com o que acontece com Jim Carey como Truman no filme O Show de Truman: ele está lá, vivendo a vida dele e, de repente, cai do céu uma lâmpada de refletor. Ele olha e não vê nada lá em cima – e, no entanto, caiu uma lâmpada do céu. Daí em diante, Truman percebe que as mesmas pessoas continuam falando o mesmo tipo de coisas para ele; que o mundo em volta dele acaba virando uma peça de teatro e que ele não é adequado para seu personagem. Tudo que ele gostava até agora, já não gosta nem um pouco – e quer cair fora disso.

Outro exemplo: tem um documentário alemão sobre um garoto de mais ou menos dezessete anos que um dia é encontrado na praia com amnésia total. Seus amigos fizeram um documentário. O menino estava perto da casa dele e todos o reconheceram, mas ele não: de jeito nenhum. Então, ele olhou para o mar com novos olhos e disse: "Quanta energia!". Como seus amigos e sua família, seus colegas de classe e seus vizinhos o conheciam muito bem, iam falando com ele como ele era – ou pelo menos como ele tinha sido. Mas agora ele era totalmente diferente: não gostava das coisas que costumava adorar – como ir ao barzinho com seus amigos. Seus gostos eram completamente diferentes: ele estava se reinventando completamente. Ele conseguia pensar muito bem, mas tudo era novo. Ele não tinha nenhum problema com o que havia acontecido. Era uma nova pessoa. Mas quem ele tinha sido antes disso? Qual era sua vida "anterior"? Será que ela era um sonho?

De acordo com Don Miguel Ruiz, um descendente de toltecas (povo que vivia no México nos séculos 10 e 11), cuja família, segundo ele, preservou a antiga sabedoria tolteca até hoje, esse caso é realmente interessante. Em seu livro Os Quatro Acordos, ele diz:

As pessoas sonham o tempo todo. Mas antes de nascermos, quem veio antes de nós já tinha criado um grande sonho para todos, que chamaremos de ”sonho da sociedade ou sonho do planeta”. O sonho do planeta é o sonho coletivo de bilhões de sonhos menores, pessoais, que juntos criam o sonho de uma família, o sonho de uma comunidade, o sonho de uma cidade, o sonho de um país e, finalmente, o sonho de toda a humanidade. O sonho do planeta inclui todas as regras da sociedade, suas crenças, suas leis, suas religiões, suas diferentes culturas e formas de ser, seus governos, escolas, eventos sociais e feriados.

Nascemos com a capacidade de aprender a sonhar, e as pessoas que nasceram antes de nós nos ensinam a sonhar de acordo com o sonho da sociedade.

Tão logo comecemos a despertar, porém, podemos escolher como proceder. Podemos mudar tão completamente que somos verdadeiramente novos. E então: será que isso também é um sonho? Talvez seja. Um grupo de indígenas na Malásia, os Senoi ("o povo dos sonhos"), tornou-se de repente mundialmente famoso nos anos 70, especialmente na América. Os sonhos têm um lugar importante em suas vidas. Eles são sempre explicados de forma positiva. Por exemplo: se uma criança sonha que está sendo perseguida por um tigre (o que é um perigo real lá), os anciãos lhe dizem para não ter medo do tigre e que na noite seguinte em seu sonho ele deve vencê-lo com um pau ou uma lança. Se ele não for suficientemente forte, precisa chamar um amigo para ajudar. Se ele sonhar com fogo, ele ouvirá que pode apagar um fogo com água. Os Senoi também são ainda conhecidos por serem muito equilibrados e quase nunca agressivos.

Os psicólogos aproveitaram essa oportunidade e começaram a ensinar as pessoas a “sonhar de olhos abertos” e a mudar seus sonhos. Como geralmente acontece com as características naturais descobertas a partir de outros povos, desenvolveram um método que foi crescendo em todo tipo de tentativa de controle de sonhos – que estavam muito distantes do original dos Senoi. As pessoas começaram a voar alto em seus sonhos, projetando todos os seus desejos. Aprender a sonhar com lucidez tornou-se um esporte no qual você podia satisfazer seus próprios desejos de todas as maneiras, inclusive à noite. Aqui, a questão é séria: a gente tem de se perguntar se toda essa manipulação não está desviando completamente a função da noite e a função do sonho. Vencer seus medos é algo bem diferente de fazer viagens de prazer ao mesmo tempo em que você leva junto sua consciência diurna. Afinal, a noite tem de ser, por excelência, o lugar da alma.

“O sono do corpo é a sobriedade da alma”, diz Hermes Trismegisto a seu discípulo. A interpretação de sonhos também pode levar você para todas as direções: você pode começar a buscar o significado dos símbolos, quando, na verdade, aqueles símbolos no fundo da consciência teriam um efeito completamente diferente se você só os deixasse quietos.

Há sonhos impressionantes que, ao despertar, fazem você perceber que eles têm alguma coisa muito especial reservada para você, mesmo que você realmente não saiba o que eles significam. Muitos anos depois, esse significado pode ficar claro de repente - principalmente se você mesmo não ficar pensando em uma explicação (porque você sempre vai querer saber).

Claro, a pergunta é: se você “acordou”, você está realmente acordado, ou existe outro nível de despertar acima de você, e talvez mais acima e mais acima ainda? Isso pode acontecer, mas seria inútil tentar forçar esse tipo de ascensão, porque, do mesmo jeito que um bebê vira uma criança e uma criança vira um pré-escolar, também existe um crescimento natural de consciência. Quem adultera isso só se afunda em um sonho cada vez mais profundo.

Quando criança, a escritora Elisabeth Haich sonhava que era filha de um faraó e que seu tio era um sumo sacerdote. Ela queria se tornar uma sacerdotisa e, em seu livro Iniciação1, descreve um teste pelo qual ela teve de passar, deitada em um sarcófago. Durante o teste, foram surgindo algumas imagens diante de sua consciência. Ela cedeu à tentação de um homem e o que aconteceu depois foi que ela realmente tinha que vivê-la. Assim, podemos imaginar que realmente estamos na Terra para aprender a resistir a todas essas tentações e começar a viver como queremos no mais profundo de nossos corações: como sacerdotes e sacerdotisas da Luz, reis-sacerdotes e rainhas-sacerdotisas. Agora existem muitas tentações e muitas vezes "a carne" é fraca. Isto nos faz compreender que a verdadeira essência de um ser humano precisa "viver" muitos sonhos antes que todos os aspectos possam ficar firmes e fortes. Mas não temos de fazer isso sozinhos. Todas as pessoas despertas, de qualquer nível, ajudam os adormecidos e sonhadores com discernimento – claro, se eles estiverem abertos para isso. E elas fazem isso com vigor. Com uma energia que é mais forte do que a tentação, mas que só pode ser adquirida quando alguém pede, e que, quando não é utilizada, se dissolve lá no fundo.

Isso é algo bem diferente de tentar melhorar sua personalidade, ou sua posição, ou ficar mais feliz – apesar de que isso é uma consequência natural de cada passo dado nesse caminho de vida que faz bem de verdade. Faz bem não só para aquele que está caminhando, mas também para todas as coisas e pessoas por quem ele passa. Todos são tocados pelo brilho da luz que mora em uma pessoa como essa. Quanto mais longe ela vai vivendo de acordo com suas ideias, mais poderoso é o brilho. E, assim como o sol não é uma esfera que pode ser vista de longe quando usamos óculos especiais, mas sim um núcleo de luz que também nos toca, e no qual estamos, assim também a radiação de uma pessoa iluminada vai cada vez mais longe, infinitamente longe, para iluminar a todos que têm o coração aberto – mesmo que seja só uma brechinha.

Para o sonhador, o sonho é real naquele momento. E agora ele pode agir sobre aquilo do que ele está consciente. Então ele se aproxima do despertar e... ele só pode fazer o mesmo novamente: sempre tentando agir corretamente, de acordo com as percepções que ele tem. Isso é crescimento – e isso é realidade.

 

Um texto de Valentino, em O Evangelho da Verdade2

Assim, eles ignoravam o Pai; ele é aquele que eles não viam. Como havia medo e confusão e falta de confiança, indecisão e divisão, havia muitas ilusões que foram concebidas por ele, as já citadas, bem como ignorância vazia – como se estivessem dormindo rapidamente e se encontrassem presas de sonhos perturbados. Ou há um lugar para o qual fogem, ou lhes falta força quando chegam, tendo perseguido coisas não especificadas. Ou eles estão envolvidos em infligir golpes, ou eles mesmos recebem hematomas. Ou estão caindo de lugares altos, ou voam pelo ar, embora não tenham asas. Outras vezes, é como se certas pessoas estivessem tentando matá-las, mesmo não havendo ninguém perseguindo-as; ou, eles mesmos estão matando aqueles que estão ao seu lado, pois estão manchados por seu sangue. Até o momento em que eles que estão passando por todas essas coisas – quero dizer, aqueles que passaram por todas essas confusões – acordados, não veem nada porque os sonhos não eram nada. É assim que aqueles que expulsam de si a ignorância como sono a consideram um nada, nem consideram suas propriedades como algo real, mas renunciam a elas como um sonho na noite e consideram o conhecimento do Pai como o amanhecer. É assim que cada um age como se estivesse dormindo, durante o tempo em que é ignorante; e, assim, chega a compreender, como se estivesse despertando. E feliz é o homem que vem a si mesmo e desperta. De fato, abençoado é aquele que abriu os olhos dos cegos.

 

Fragmentos de Os Quatro Acordos3

Nascemos com a capacidade de aprender a sonhar, e os humanos que viveram antes de nós nos ensinam a sonhar da maneira como a sociedade sonha. O sonho externo tem tantas regras que quando nasce um novo ser humano, prendemos a atenção da criança e introduzimos essas regras em sua mente. O sonho externo usa a mãe e o pai, as escolas e a religião para nos ensinar a sonhar.

A atenção é a capacidade que temos de discernir e de nos concentrar apenas naquilo que queremos perceber. Podemos perceber milhões de coisas simultaneamente, mas, ao utilizar nossa atenção, podemos manter o que quisermos perceber em primeiro plano em nossa mente. Os adultos ao nosso redor prenderam nossa atenção e colocaram informações em nossas mentes através da repetição. Foi assim que aprendemos tudo o que sabemos.

Ao usar nossa atenção, aprendemos toda uma realidade, todo um sonho. Aprendemos como nos comportar na sociedade: o que acreditar e o que não acreditar; o que é aceitável e o que não é aceitável; o que é bom e o que é ruim; o que é belo e o que é feio; o que é certo e o que é errado. Já estava tudo lá – todo aquele conhecimento, todas aquelas regras e conceitos sobre como devemos nos comportar no mundo. (…)

O sonho externo prende nossa atenção e nos ensina no que devemos acreditar. (...) Não foi sua escolha falar sua língua. Você não escolheu sua religião ou seus valores morais – eles já estavam lá antes de você nascer. Nunca tivemos a oportunidade de escolher no que acreditar ou no que não acreditar. Nunca escolhemos nem mesmo o menor desses acordos. Nem mesmo escolhemos nosso próprio nome.

Como crianças, não tivemos a oportunidade de escolher nossas crenças, mas concordamos com as informações sobre o sonho do planeta, que nos foram passadas por outros humanos. (...) Logo que concordamos, acreditamos nisso: e isso se chama fé. Ter fé é acreditar incondicionalmente.

É assim que aprendemos quando crianças. As crianças acreditam em tudo o que os adultos dizem. Concordamos com eles, e nossa fé é tão forte que o sistema de crenças controla todo o nosso sonho de vida. (…)

Chamo esse processo de “domesticação de seres humanos”. O sonho externo nos ensina como ser um humano. (…)

Todas as nossas tendências normais são perdidas no processo de domesticação. (...) A domesticação é tão forte que em certo momento de nossa vida não precisamos mais de ninguém para nos domesticar. Não precisamos mais da mãe ou do pai, da escola ou da igreja para nos domesticar. Somos tão bem treinados que somos nosso próprio domesticador. Somos um animal domesticado. (…)

Cada um de nós nasce com certa quantidade de energia pessoal que reconstruímos todos os dias depois de descansarmos. Infelizmente, gastamos toda a nossa energia pessoal. Primeiro, para criar todos esses acordos e depois para mantê-los. Nossa energia pessoal é gasta em todos os acordos que criamos, e o resultado é que nos sentimos impotentes. Temos apenas a força suficiente para sobreviver a cada dia, porque a maior parte dela é utilizada para manter os acordos que nos aprisionam no sonho do planeta. Como podemos mudar todo o sonho de nossa vida quando não temos força para mudar nem sequer o menor acordo?

Se conseguimos perceber que o que rege nossa vida são os acordos, e que não gostamos do nosso sonho de vida, então precisamos mudar os acordos. Quando finalmente estivermos prontos para mudar nossos acordos, há quatro acordos muito poderosos que nos ajudarão a quebrar os que nascem do medo e esgotam nossa energia. Cada vez que você quebra um acordo, todo o poder que você usou para criá-lo retorna para você. Se você adotar estes quatro novos acordos, eles criarão energia pessoal suficiente para que você mude todo o sistema de seus antigos acordos. Você precisa de uma vontade muito forte para adotar os Quatro Acordos – mas, se você puder começar a viver sua vida com esses acordos, a transformação em sua vida será incrível. Você verá o drama do inferno desaparecer bem diante de seus próprios olhos. Ao invés de viver em um sonho de inferno, você estará criando um novo sonho: seu sonho pessoal de céu.

 

 

 

 

  • 1. Elisabeth Haich, "Iniciação: romance místico-biográfico". Origo, Zurique 1954; edição húngara: Beavatás: óegyiptomi misztériumok. 2 vols. Édesvíz K., Budapeste 2004.
  • 2. "O Evangelho da Verdade". Em Meyer, M.W. (ed.). As Escrituras de Nag Hammadi: A Tradução Revisada e Atualizada de Textos Gnósticos Sagrados Completos em Um Volume. HarperOne.
  • 3. Don Miguel Ruiz, "The Four Agreements, A Practical Guide to Personal Freedom", capítulo 1: Domestication and the Dream of the Planet, 1997.
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