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As duas ordens de natureza

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Janeiro, 15h40. Atravesso a praça, numa tarde fria com um fino raio de sol. Levanto os olhos e leio em um grande cartaz letrado, pichado num extenso muro branco: “Dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.

Ajustei o casaco ao corpo como se ajustasse o teor da frase aos meus pensamentos.

- Que devo dar a César, um passado que não vi e não conheci?

Mas as implícitas palavras me fizeram refletir: Dar a Deus o que é de Deus.

É sempre assim: momentos de travessia, ruas alagadas, noites enluaradas, não faz muita diferença a temperatura do tempo, essas frases se potencializam em minha mente, em meus pensamentos.

Vivo assim como que dividido em naturezas opostas, mas intimamente entrelaçadas.

- Devo fazer uma escolha?

- Conheço este Deus que tão imperiosamente fala dentro de mim? Então, o que devo dar a Deus?

Interessante é que me sinto fustigado por essas duas ordens de pensamento que se impõem dentro de meu ser. Fico meio perdido nesta avaliação com a qual meu ser se identifica: ora no exterior, César; ora no interior, Deus.

Ergo então a coluna, e me refaço destas “divagações”.

Percebo que meu subconsciente também possui duas faces; que minha consciência intelectual também possui dois entendimentos.

- Como obter a percepção correta deste ensinamento?

Aprofundo a busca dentro de mim. Vou cada vez mais fundo!! Será que investigo a busca de uma memória original? É possível que haja um registro permanente, como uma reminiscência, de tudo o que deu origem à vida? A mim? Ao mundo?

Como uma luz líquida, percebo que algo percorre meu cérebro, minhas veias, minha coluna. É este o significado da vida?

Pensamentos, análises, julgamentos, comparações. Existem essas duas ordens de natureza tão distantes e mal entendidas?

Mas elas estão em mim... Fico remoendo o passado em mim. Essas divergências existem em meu mais profundo ser. Distantes, diferentes, separadas e conturbadamente juntas.

A quem recorro em minhas horas de angústia, tristeza e isolamento? Converso comigo mesmo, e obtenho respostas ... “o que era velho já passou; eis que faço tudo novo”.

Mas nem sempre foi assim.

Mudei minha percepção para com o mundo ou para comigo mesmo?

Continuo distante das galáxias, mas minha consciência me diz que sou ouvido. Perto ou longe, quem me presta o socorro nestas horas de introspecção? São respostas desta ordem natural ou de uma ordem divina?

Percebo, então, que além de meu ser físico, há um ser de outra construção, um outro arquétipo que preciso conhecer, com o qual preciso me relacionar, me envolver mais proximamente. Afinal, somos dois, dois em um. Um único ser.

 

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