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Encontros

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Podemos conhecer uma pessoa, dar-lhe a mão, trocar algumas palavras. Um olhar pode nos dar uma impressão. Pode ser que sejamos cautelosos porque tivemos alguma experiência ruim no passado. Nosso coração, no entanto, segue seus próprios caminhos e, espontaneamente, sem prestar atenção a nossas experiências, estabelece uma proximidade ou uma distância, deixa o amor incendiar-se ou cria uma aversão feroz. Depois desse encontro, às vezes temos vergonha de como nos comportamos.

“Mas estamos todos ligados!”, diz o coração. “Não se deixe enganar. O modo como você se comportou é você; a maneira como você deu atenção a essa pessoa, o amor e a amizade, tudo isso é você”.

Mas... nossa experiência nos ensina que a atenção que damos a alguém pode trazer decepção, o amor pode ser traído e as amizades, dissolvidas. Toda vez que isso acontece, é doloroso – e ficamos feridos. Quase todos os dias vemos na mídia como aquilo que é essencial para o coração das pessoas é pisado e como a vida mais íntima de uma pessoa é atraída para o mercado midiático. Alguma coisa dentro de nós começa a protestar: “Isso não pode ser verdade! Amor é amor; amizade é amizade ”. Mas a mídia celebra isso – esse é o negócio dela. De uma maneira não dita, ela insinua: "Você pode imaginar altos ideais, mas a natureza humana simplesmente não existe, e esta reportagem continua demonstrando isso". Um certo espírito de desprezo parece acompanhar algumas dessas reportagens e o fascínio delas vem da desarmonia com os valores de nosso ser mais íntimo. "Isso realmente não pode ser, não é possível!", podemos dizer para nós mesmos.

Seria o mesmo fato que aconteceu antes e foi repetido várias vezes como um disco quebrado? Veja, as circunstâncias são sempre diferentes, mas o tema é sempre o mesmo: é a ruptura da Unidade que vai puxando valores internos para fora e criando uma aparência de mundo exterior, na qual, os seres internos se encaram pelo lado de fora – como se fossem estranhos!

“É isso o que o destino significa: ser o oposto – e ser isso e nada mais: ser sempre o oposto”. (Rilke em Elegias 8: Dieses heisst Schicksal: gegenueber sein und nichts als das und immer gegenueber).

Nós nos confrontamos – e, quando chegamos muito perto um do outro, sofremos em meio a toda essa felicidade. O mesmo poeta pergunta: “Esses sofrimentos antigos não deveriam ser frutíferos para nós?”. (Rilke, em Elegia 1 Sollen nicht endlich uns diese ältesten Schmerzen fruchtbarer werden?). E ele chega à conclusão de que sofrimentos fazem que “nos tornemos algo mais do que nós mesmos” (Rilke, em Elegia 1, na sequência: “mehr zu sein als er [uns] selbst”).

O que é isso, esse "mais"? Vamos observar nossos encontros. Eles estão sempre ligados a algum tipo de atenção. Temos aberturas, portas que se abrem uma para outra, pois não somos seres fechados. E assim, chegamos um ao outro com nossos pensamentos, nossos sentimentos e nossa psique. Em encontros mais aprofundados, desenvolvem-se espaços do tipo psicológico e as duas pessoas formam uma atmosfera em comum. Alguma coisa vai fluindo de um e se misturando com a outra pessoa. É como misturar uma bebida – e cada uma delas bebe um pouco. Assim, absorvemos um ao outro, nos transformamos por meio do outro e nos encaramos no reflexo do outro. Às vezes é maravilhoso, outras vezes é horrível. Mas sempre seremos um pouco transformados. De qualquer modo, será que chegamos realmente a nos tornar esse “algo mais" sobre o qual Rilke está falando?

Podemos nos ver como partes de um quebra-cabeça; mas somos partes que não se encaixam bem. Todos se sentem como se fossem uma totalidade – e estão certos, pois cada pessoa define a si mesma. Mas o quebra-cabeça da humanidade não pode ser montado desse modo porque, nessa busca individual, tendemos a não considerar o ponto de vista geral.

Cada encontro com outra pessoa contém a promessa potencial de Unidade. Mas geralmente permanece uma promessa não cumprida, porque sentimos abismos e fossos desconhecidos entre nós – e fugimos deles. Eles estão dentro de nós e, consequentemente, também em nossa relação com os outros. Então nos sentimos como um ser que não é suficientemente poderoso ou que não é suficiente completo para preenchê-los.

Por isso, ficamos com nossos medos, nossas reservas e nossas táticas. Sentimos que é preciso haver um ser maior do que somos para preencher os abismos, para limpar os caminhos. E, no entanto, às vezes há algo dentro de nós que se ilumina como um flash interior de luz, e que nos mostra que há algum potencial dentro de nós que ainda não foi realizado.

É assim que a Unidade nos confronta em momentos iluminados. É o estágio muito simples, invisível e onipresente em que toda ação ocorre – incluindo nossos encontros. A Unidade é a única vida da qual participamos. É o Todo, a única realidade: aquela realidade que sentimos como se estivesse fragmentada.

Podemos pesquisar com mais frequência a maneira pela qual a Unidade brilha dentro de nós. Esse núcleo essencial e abrangente que se encontra dentro de nós pode nos instruir sobre como podemos abordá-lo da melhor maneira.  Assim, poderemos dissolver os obstáculos internos, reconhecer e curar velhas feridas e preencher os lugares vazios em nossa alma! Se nos comprometermos a curar esse relacionamento com nosso próprio ser, nossas boas intenções poderão ser cumpridas e nosso maior sonho será realizado: poderemos encontrar outras pessoas com um coração verdadeiramente aberto.

 

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