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A importância de um grupo espiritual hoje - Parte 1

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Quase todas as comunidades religiosas ou espirituais do chamado mundo ocidental estão passando por uma baixa de membros permanentes. 

Se quisermos abordar a questão da importância dos grupos espirituais hoje, achamos fundamental considerar primeiro as razões para a crescente rejeição que o indivíduo contemporâneo apresenta quanto a instituições religiosas e grupos espirituais. Gostaríamos de começar sugerindo quatro possíveis razões para esse fenômeno.

A primeira razão é que hoje, nos países ocidentais, apesar desta situação especial em que vivemos, existe uma segurança social sem precedentes1 que anda de mãos dadas com a segurança psicológica e as liberdades sociais e pessoais de longo alcance. Essa situação abre cada vez mais oportunidades para que as pessoas expressem externamente sua individualidade pessoal. A experiência de viver fora da individualidade, por outro lado, leva psicologicamente a uma atração muito reduzida por comunidades e narrativas espirituais fixas e coletivas.

Outra consideração que poderíamos fazer é que há cerca de 20 anos apenas alguns grupos eram conhecidos e acessíveis, enquanto hoje todos os grupos espirituais do mundo podem ser encontrados online com alguns cliques. Portanto, hoje existe um variado espectro de grupos religiosos online, visivelmente sem fronteiras, com suas visões de mundo e ensinamentos. 

Como resultado, aquilo que antes parecia ser o único “ponto de venda” (como chamavam a apresentação de um grupo na era analógica) está ficando confuso na era da informação de hoje. Portanto, hoje existem razões menos fortes para alguém aderir a determinada comunidade – pois ela é apresentada ao lado de muitas outras opções. Psicologicamente, isso significa que é mais provável que nenhuma opção será escolhida .2

Uma terceira razão, que caminha par e passo com a que mencionamos antes, pode ser que, nesta época atual – a Era da Informação – as instituições religiosas perderam o monopólio que ainda detinham no século passado quanto ao conhecimento religioso e sua interpretação. Hoje, o conhecimento já não está centralizado em instituições nem ligado a elas, mas pode ser acessado online a qualquer momento, de um modo descentralizado. As pessoas estão cada vez mais entrando em sites nos quais podem adquirir instantaneamente o conhecimento de que precisam e sobre o qual elas mesmas se interessam. Portanto, as comunidades e instituições espirituais estão perdendo seu significado e importância também nesse nível.

Um último ponto poderia ser também o crescente domínio social e psicológico da ciência moderna. Isso leva, sem dúvida, ao fato de que as pessoas estão cada vez mais rejeitando visões de mundo ultrapassadas ou inconsistentes, de muitas comunidades religiosas, e, por isso, são fundamentalmente críticas a abordagens como: "acreditar" e "autoridade espiritual".

 

Uma abordagem para descobrir a resposta

Então, qual seria o futuro dos grupos espirituais? E que importância tem um grupo espiritual hoje?

Se quisermos descobrir, juntos, qual é o significado e o potencial de um grupo espiritual – no sentido mais profundo da palavra – precisamos abordar essa questão de forma completamente imparcial, livre de todas as suposições, de todas as crenças, de todas as narrativas, de toda tradição, de toda imaginação, de todo passado. Será que conseguimos fazer isso? Afinal, só estaremos à altura da dimensão criativa que potencialmente está em um grupo como esse se permitirmos que nossa pergunta nos leve além de tudo o que sabemos e do que pensamos. Portanto, não devemos partir do conhecido. Só então o primeiro passo pode ser completamente novo. 

O primeiro passo é: fazer a pergunta.

Assim, se nos indagarmos profundamente sobre essa questão, não faremos isso com base em especulações ou por desvio do conhecimento. Estaremos fazendo isso com base na importância vital, veemente e definitiva desse questionamento. E, assim, estaremos todos juntos no mesmo terreno: que é o de um não-conhecimento e de um questionamento vital.

Quando nos encontramos nesse nível, então estamos aptos para fazer a pergunta juntos – como se fôssemos “uma só alma”. Logo, esse questionamento não se instala em muitos indivíduos separados: na verdade, ele se apresenta na própria vida, no espaço que se abre entre nós.

 

A base comum mais profunda de um grupo

Permanecendo juntos dessa forma, percebemos que a base comum mais profunda de um grupo não é seu conhecimento, suas opiniões ou narrativas, mas sim a simplicidade da pesquisa mútua sobre o não-conhecimento. Na simplicidade do não-saber vital, a separação superficial entre os indivíduos vai se retirando e o grupo é levado de volta à sua essência comum.

Dedicar-se mais demoradamente a uma pergunta que nasce do não-saber e explorá-la com a mais pura consciência, sem respondê-la, tem um poder imenso! É a mais pura beleza quando um grupo tem essa percepção com total clareza. Entretanto, é evidente, não como um conhecimento aprendido, mas como uma qualidade estrutural, que cresceu em cada participante devido à investigação e ao discernimento de um e de outros: um discernimento que surge da mesma forma a partir do ponto mais baixo do não-saber e da observação silenciosa.

Mestre Eckhart (1260-1328) faz uma observação interessante sobre esse aspecto, em seu discurso “Sobre o Não-Saber”. E, embora ele pareça estar se dirigindo ao indivíduo na citação seguinte, suas palavras também se aplicam a um grupo de pessoas, ou até mesmo à humanidade:

Para executar um ato interior, a pessoa precisa retirar todos os seus poderes como se estivesse em um canto de sua alma onde, escondida de todas as imagens e formas, ela pode agir. Lá, ela precisa chegar a um esquecimento e a um não-saber. É necessário haver uma quietude e um silêncio para que esta Palavra [eterna] seja ouvida. Não podemos servir melhor essa Palavra do que quando estamos em quietude e em silêncio: lá podemos ouvi-la, e lá também a entenderemos corretamente – no não-saber. Para aquele que nada sabe, ela aparece e se revela.3

Portanto, quando nós, como grupo, estamos nesse terreno do não-saber, podemos perguntar: qual é o significado de um grupo espiritual nos tempos de hoje? Então, temos uma mente completamente receptiva, uma mente que não tem limites, que não teme que o movimento vivo da resposta, que nasce da pergunta interior, possa contradizer nossa própria opinião. Na verdade, uma mente como essa está livre de todo e qualquer ponto de vista. Isso significa que a possibilidade de nos sentirmos ameaçados pela verdade acabou em pura consciência!

E, se já chegamos tão longe, perguntando juntos, podemos questionar: Qual é o significado de um grupo verdadeiramente espiritual nos tempos atuais?

Quando fazemos essa pergunta, percebemos que a resposta a ela não se encontra no reino do conteúdo. Percebemos que existe apenas uma resposta fluente, vital e sem palavras no reino do espírito, na qual o homem pode participar. Essa resposta não está se expressando dentro de certos limites. É um movimento holístico e indivisível. Um grupo que é capaz de fazer essa pergunta é como um ouvido: como um corpo ressonante que é receptivo. E, com essa receptividade, com essa audição, com essa ressonância, a verdade da resposta se manifesta diretamente em um certo nível, em vigor e, portanto, em ação. A energia criativa correspondente é liberada e age a partir de sua própria qualidade atemporal em todos os outros níveis do ser.

Mestre Eckhart continua dizendo, no mesmo discurso:

Afinal, por mais ilimitado que Deus seja no ato de dar, assim é a alma em ouvir ou em receber. E, assim como Deus é onipotente em ação, também a alma é um abismo de tomar; e, por isso, ela é transfigurada, remodelada com Deus e em Deus. Deus agirá e a alma receberá; Ele conhecerá e se amará na alma; ela conhecerá com o Conhecimento Dele e amará com Seu amor [...].

 

(continua na Parte 2)

  • 1. Yuval Noah Harari, "Homo Deus: A brief history of tomorrow" [Uma breve história do amanhã], Harper; edição ilustrada (2017).
  • 2. Veja também "Paradox-of-Choice" [Paradoxo da escolha].
  • 3. Mestre Eckhart – Sermão 2 – "Vom Unwissen" [Sobre o Não-Saber].
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