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A neutralização do eu - Um conceito racional?

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Muitas vezes, os ensinamentos gnósticos nos falam de “autoneutralização”, “morte do eu”, “silenciamento do eu” e processos similares que podem soar radicais o suficiente para nos provocar questionamentos, pelo menos inicialmente, sobre a racionalidade de uma ação como essa.

Mesmo aqueles que estão familiarizados com esses conceitos e acham que os entendem bem o suficiente, quando sentem dificuldade em implementá-los, podem alimentar pensamentos do tipo "e se...". Na verdade, não há dificuldade! Mas, por enquanto, esse não é o nosso tema.

Pelo fato de haver um mal entendimento sobre esse processo, podemos observar uma consequência histórica interessante quando tomamos o exemplo da Igreja Católica Romana, que interpretou o processo cátaro de “endura” como um suicídio ritual. Ela não poderia estar mais longe da verdade! 

A compreensão desse conceito também está relacionada à nossa compreensão da vida em geral, e às formas pelas quais alguém pode servir à sua universalidade.  Afinal, por exemplo, por que será que tanto a filosofia clássica cristã como a gnóstica chinesa dizem em uma só voz: "Aqueles que amam sua vida neste mundo a perderão. Aqueles que não se importam com sua vida neste mundo a manterão para a eternidade"1?  

Muito tem sido escrito sobre esse assunto na literatura espiritual. Mas será que podemos encontrar alguma referência a ele na moderna "ciência da alma", a psicanálise?

Na psicanálise, uma das definições mais utilizadas do caráter de uma pessoa é que ela "representa um conjunto de certos mecanismos de defesa psicológica – ou seja, abordagens individuais – para lidar com estados de dissonância e ansiedade"2. De fato, dissonância e ansiedade estão presentes e se acumulam a partir da primeira infância, como resultado da colisão entre os instintos de autenticidade e a necessidade pessoal de validação.  Isso significa, por um lado, a oportunidade de expressarmos livremente nossas reações e emoções, enquanto que, por outro lado, sentimos a necessidade de sermos aceitos e aprovados: primeiro, por nossos pais; e, mais tarde, por nosso ambiente social ampliado.

É impossível haver um consenso real entre essas duas forças opostas no interior da psique humana.  É por isso que, ao tentar reconciliá-las, acumulamos defesas psíquicas que, com o tempo, constroem nosso caráter. Consequentemente, mesmo a mais sofisticada e intrincada concepção filosófica do ser humano, da vida e do mundo, em essência, carrega e reflete o caráter do autor.  É a racionalização de sua atitude pessoal em relação às coisas, aos resultados do que ele acumulou, aos mecanismos que sua psique construiu para se sentir protegido.

Definimos esse acúmulo de experiências como "eu", ou "ego".  Esses processos continuarão normalmente ao longo de nossas vidas, simplesmente porque são um produto de nosso instinto de autopreservação.  E, por causa disso, não nos permitimos olhar mais profundamente para nossas próprias crenças e ver o medo ou o desejo – que é a fonte de uma ou outra das distorções resultantes em nossa vida.

Entretanto, colocar de lado nossos mecanismos de defesa psíquica nos permitiria ver uma parte de nós mesmos como medíocre e desistir dela. E isso não acontece com dor no coração, mas com uma alegre sensação de liberdade: é o autoconhecimento em sua forma inicial.

Parece que mesmo para os primeiros passos do autoconhecimento é preciso, pelo menos parcialmente, superar o muro da própria autopreservação. Deixando de lado alguns de nossos condicionamentos mentais, um espaço puro e vazio é liberado em nós e o caminho espiritual pode começar. E assim vai.

Nada real pode morrer. Apenas o que é falso morre. O que é artificial em nós realmente precisa ser neutralizado para que a Verdade nos guie para si mesma. É por isso que o apóstolo Paulo diz: "Eu morro todos os dias" (1Cor 15:31), em cumprimento ao chamado de João: "Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas" (Lc 3:4).

Que aprendamos a trilhar cada vez melhor esse caminho!

  • 1. Trecho do conhecido versículo de João 12:25; este é também o significado da parte final do capítulo 55 de Tao Te Ching, pelo menos em algumas traduções.
  • 2. Nancy McWilliams, Diagnóstico Psicanalítico.
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