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Percepção – O que nossos olhos veem

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Quem olha para uma fotografia vê, por assim dizer, através de quatro olhos: os seus e os do fotógrafo. O fotógrafo permite que os outros vejam o que ele próprio viu. Assim, em certa medida, ele direciona nosso olhar. Contudo o desafio para o fotógrafo vai ainda mais longe, como demonstra o trabalho de Hiroshi Sugimoto.

Nosso olho filtra muitos detalhes enquanto a câmera, o quinto olho, registra tudo perfeitamente, inclusive os detalhes que o fotógrafo não percebeu. Portanto, não é estranho que, para o fotógrafo Hiroshi Sugimoto, embora ele escolha temas como paisagens marítimas, cinemas, estátuas de cera, dioramas e descargas elétricas, seu verdadeiro campo de pesquisa seja a percepção.

O que é realmente olhar? E o que está sendo observado? Na maioria de suas paisagens marítimas vemos apenas céu e água. O olho procura rapidamente por detalhes, por algo que possa criar uma história ou dar um significado. O horizonte fornece apenas uma impressão vacilante ao olhar inquieto, pois é da natureza de um horizonte permanecer inacessível.

Há apenas a plenitude do vazio. Não há barcos, nem gaivotas, litorais deslumbrantes, nuvens ou ondas. Em alguns retratos, a foto é conscientemente mantida fora de foco.

Há somente o que é. O olho busca e, ao fazê-lo, faz com que não percebamos aquilo que é.

Um filme inteiro em apenas uma foto

Influenciado pelo Zen Budismo, Sugimoto refletiu: o que aconteceria se eu pudesse representar um filme inteiro em apenas uma foto?

Nas suas fotos de cinemas, vemos a tela de projeção cercada pela sala. Para essa única foto ele deixou o obturador da câmera aberto em longa exposição durante todo o filme: tudo o que se moveu durante esse tempo não é mais visível. Então, embora as pessoas chegassem, vissem o filme e saíssem novamente, vemos apenas uma tela branca e poltronas vazias. Do filme, com suas imagens em movimento resta apenas uma, a superfície branca iluminada.

Como existe uma tela, nós vemos a luz que possibilita a projeção e, por causa da luz, também enxergamos o espaço para os espectadores. Entretanto não vemos espectador ou filme algum: apenas luz e espaço.

Em seus dioramas, vemos imitações de cenas naturais. Na época vitoriana havia decorações populares de animais empalhados que sugeriam seu ambiente natural.

Além disso, imagens de cera de figuras históricas retratam seres vivos, mas elas são apenas cópias exatas dos verdadeiros.

É tudo artificial e experimentamos apenas uma visão de segunda mão. É que enxergamos interpretações e imagens-pensamento de como algo deve ter sido e não vemos a vida real desses animais ou pessoas. A pesquisa da percepção é colocada em foco quando Sugimoto, nas fotografias que tira – além da estranha aparência real ou empoeirada, sem vida – também parece deixar de lado a história de educação e entretenimento relativo a elas. As imagens e cenas de suas fotos são, portanto, da mesma qualidade que um pintor poderia obter se ele tivesse tais animais e pessoas vivas diante dele.

Em sua série, Lightning Fields (Campos de Relâmpagos) ele parece ter se retirado completamente do domínio do controle do olho.

Ele provoca uma descarga elétrica em uma solução química onde se encontra uma chapa fotográfica. Os efeitos da descarga se propagam. Nas estruturas etéreas das fotos parece que estamos vendo surgir a própria vida. E isso é possível porque não há intervenção do olho do fotógrafo: ele é apenas um instrumento na revelação. Estamos sendo arremessados de volta a nossa única percepção – olho a olho com a natureza.

Como as fotos do cinema, com sua exibição completa do filme e seu público, que capturam apenas um espaço vazio e uma tela branca, a natureza transitória da vida torna-se visível como ela realmente é. O movimento e a percepção do ser humano ocorre no tempo e no espaço, e esse fato e nossa percepção estão agora sob um ponto de interrogação. Embora acreditemos que nossos olhos percebem de maneira neutra, vemos apenas nossas ideias projetadas sobre aquilo que enxergamos. O observador e o que ele viu se confirmam um ao outro em suas existências temporárias e relativas. 

Mas, primeiro, quando damos às imagens e à percepção um status absoluto, eles são vistos como reais. Somente mais tarde percebemos a vida de crenças e reconhecemos que nossos olhos são cegos, apesar de enxergarem. Assim, estamos presos na alternância constante dos opostos: o bem e o mal, o lazer e o estresse, o amor e o ódio. E precisamos satisfazer o desejo de emoção quando olhamos ainda mais para o “filme com aparência de realidade”. 

Deve haver luz

As várias imagens cambiantes do filme, assim como nossas percepções, são possíveis apenas quando há luz. Tudo o que se manifesta só é possível graças à luz. É claro que é verdade para a maioria das pessoas que a luz da consciência ilumina o rolo do filme de suas memórias. Ele projeta histórias e imagens em nosso cérebro, e nossos desejos e temores deformam a percepção.

Portanto, quando não existem espectadores nem filme, há apenas luz, e não há filme sem um observador. Público e filme, o observador e o observado, o sujeito e o objeto são, em última instância, irreais. Somente a luz é permanente e real.

Nas fotografias, a luz do projetor de cinema aparenta estar separada do observador e do observado, e parece tomar o lugar da própria observação. A ditadura do olho embaçado e condicionado tem a aparência de estar ausente por um momento.

O olho vê graças à luz, mas não vemos a luz em si, pois a visão e a luz são, na realidade, uma só.

A visão e a claridade da luz que não faz sombra utilizam o olho, quando é necessário mostrar aquilo que é. Quem sabe tudo e dá vida a todas as coisas é a luz da consciência liberada na alma. Não há qualquer saber nem nada conhecido: há apenas um Saber em si mesmo: um surgimento que é livre de tudo.

Isso é provavelmente o vislumbre que Sugimoto teve durante a infância dele, e mais tarde, como adulto, por conta de sua orientação Zen e de suas experiências extracorpóreas. Tudo isso inspirou suas pesquisas sobre a percepção. 

No momento em que se pensa conhecer algo, um conceito acaba de ser formado.

Atribuições de palavras e conceitos como mar e ar são de fato muito práticos na existência relativa, mas ainda assim surge um horizonte que os separa. Além e fora dessa relatividade não há mais uma fotografia para mostrar a nossa visão. Há somente luz, somente aquilo que é.

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