On becoming Nothingness

Sobre tornar-se o nada - o material de construção de Deus

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Os rosa-cruzes clássicos do século 17 afirmaram:

Vocês, que são prudentes, encontram abrigo conosco. Não estamos atrás de seu ouro; até oferecemos a vocês nossos tesouros imensuráveis.

Mas o que são realmente esses “tesouros” e por que eles são imensuráveis? A partir de um ponto de vista interior, eles estão associados ao despertar da consciência que leva a uma percepção imediata da realidade, livre de atitudes e doutrinas rígidas estabelecidas pelo passado.

No entanto, um verdadeiro despertar não significa obter autoconsciência desse processo. Talvez você se lembre da parábola bíblica do jovem rico. Ele é tão rico em conquistas e qualidades, que simplesmente não consegue deixar tudo para trás: tornou-se um deus de si mesmo – e por isso, não consegue se voltar para o Deus de todas as coisas.

Quando Jesus diz que é difícil um homem rico entrar no reino dos céus, os apóstolos ficam extremamente intrigados. Uma pessoa que já adquiriu tudo e segue as prescrições das leis espirituais é incapaz de receber o Espírito. E é normal perguntarem: se essa pessoa é incapaz, então existe alguém que possa fazê-lo? A resposta é simples: isso não é possível para seres humanos. Não há como o homem alcançar algo que não seja humano. Mas é claro que, para Deus, tudo é possível – desde que haja espaço para que Ele trabalhe.

Um desses lugares de manifestação apontado pelos rosa-cruzes clássicos é o templo sepulcral de Cristão Rosa-Cruz. Esta construção, que é um símbolo alquímico, está localizada no coração de cada pessoa e nela há uma boa descrição do processo para encontrá-la.1 A descoberta do templo começa com a morte do irmão A. A letra A é a primeira letra do alfabeto. Poderíamos também nos referir à nossa própria percepção de nós mesmos como “a primeira letra do alfabeto”.

No entanto, somente após a morte do irmão A, o irmão NN pode vir em seu lugar. Ele encontra uma placa comemorativa de bronze, arranca o prego que a segura e, atrás do reboco quebrado, encontra a porta do templo do sepulcro. O memorial em latão, retirado de seu lugar de destaque, é um símbolo de nosso passado, de todos os conhecimentos e experiências acumulados em nós, que até agora sempre nos determinaram, e até agora foram nossa riqueza. Nesse sentido, todos nós podemos nos ver como “o jovem rico”.

Mas então podemos perguntar: quem e o que é o irmão NN? NN significa “nada” e “ninguém”. Muitas pessoas acreditam que a remoção dessa placa comemorativa de bronze as privaria de sua identidade. Aqui está um grande segredo: dentro da câmara há outra placa de latão – um tipo de identidade completamente diferente.

As seguintes palavras de Cristo destinam-se às características da pessoa que revela o templo sepulcral: “Aquele que perder sua vida, a encontrará”, e também as palavras de Lao Tsé: “Só o pequeno pode alcançar o grande”.

Nessa base, somente o processo chamado de “renascimento pela água e pelo espírito” poderá ser realizado. Também é nessa base que é executado o processo que conhecemos como “transfiguração”. A transfiguração de Jesus Cristo no Novo Testamento é representada por uma nuvem de luz no Monte Tabor. A mesma nuvem de luz guiou Moisés quando ele recebeu a tarefa de levar seu povo à Terra Prometida.

Essa nuvem toma o lugar do chamado Ser Superior do homem quando a personalidade renuncia a seu próprio fundamento e à sua própria vontade em nome da vontade de Deus.

Em tempos mais próximos de nós, as pessoas descrevem o que chamam de “Luz Incriada”. Seus depoimentos nos mostram que, com essa iluminação, ao mesmo tempo, há uma percepção imediata e dolorosa da decadência humana pessoal e em comunidade. Esse profundo entendimento é uma pesada cruz para carregar, e quem a carrega para si mesmo, logo estará exausto. Mas quem a leva pelo amor de Deus e pelos outros não recebe exatamente força ou perseverança, mas sim inspiração – uma pequena fração do processo de criação, que nas lendas é chamado de “insuflar vida nas narinas”. Com essa inspiração, o peso da cruz se torna outro tipo de peso, que poderíamos chamar de “sentido da vida”.

Aqui também podemos lembrar que Cristão Rosa-Cruz passa pela pesagem na balança, antes de participar da procissão das Núpcias Alquímicas.2 Ele não tem nenhum ponto de referência em si mesmo, e por isso suporta os sete pesos – o teste do Espírito Santo. Ele diz que foi a misericórdia de Deus (e não suas qualidades ou habilidades pessoais) que o ajudou. Portanto, quando todos os pesos são colocados no prato, eles não podem mover aquele que tomou o seu lugar não por conta própria, mas sim pela vontade de Deus.

Muitas vezes falamos sobre “serviço”, mas realmente entendemos o significado dessa expressão? Dentro de nós há uma idéia e um modelo (um produto da velha consciência) que corresponde a essa manifestação. Diz-se que “serviço” significa “sacrifício”. A palavra “sacrifício” vem do latim sacro facere e refere-se a um ato sagrado (sacro ofício), mas somente alguns poucos entendem que o que precisa ser sacrificado é, acima de tudo, nossa idéia pessoal a respeito do serviço. Nossa ideia pessoal também se reflete em nossas demandas com outras pessoas e nas reivindicações que fazemos à própria vida. Mais auto-afirmação ainda!

Como somos bem educados e até cultos, nossa auto-afirmação tenta se esconder, e muitas vezes se manifesta em atos que acreditamos fazer “pelos outros”. Mas geralmente isso serve apenas para elevar nossa auto-imagem aos nossos próprios olhos.

Seguir o caminho da autorrendição talvez pareça algo bastante envolvente e difícil. Mas seria mais justo dizer que é realmente impossível para um ser humano. No entanto, como mencionamos no início, para Deus tudo é possível. Não só isso: tudo é muito fácil para Ele. Ele só precisa de um chão para trabalhar – ou de um deserto.

Como o mundo nasceu? Não é verdade que o Supremo Criador o fez do Nada? Então fica claro que, se Deus quiser fazer Seu trabalho dentro de nós, precisamos apenas ser o Nada – Seu material de construção.

  • 1. Em Fama Fraternitatis.
  • 2. No terceiro manifesto dos rosa-cruzes clássicos: As Núpcias Alquímicas de Christian Rosenkreuz.
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