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O Pequeno Príncipe – a história do retorno – Parte 1

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PODCAST

Somos todos viajantes. Sempre nos apegamos àqueles com quem temos uma conexão espiritual ao invés de física, e esperamos chegar ao destino desejado. No final de nossa jornada, percebemos que a única coisa que importa é saber se poderíamos ter dado alguma coisa de nós aos nossos companheiros: algo que os tivesse ajudado a crescer. Será que nossa presença tornou a viagem deles mais bonita e fácil? - Robert Lawson (nascido Róbert Kováts, 1892-1957, escritor e ilustrador americano de livros infantis).

 

O livro de Antoine de Saint-Exupéry é uma das histórias mais famosas do mundo. É uma história popular mencionada e citada por muitas pessoas. Esse livro deixou sua marca na história cultural do mundo e afetou o desenvolvimento da consciência humana.

Comparado com antigas fábulas e contos folclóricos, esse livro pode ser visto como uma história didática cheia de emoções, apresentada por uma trama com muitos fios. Usando um tópico semelhante, palavras e personagens parecidos, seria fácil criar obras de ficção pretensiosas, mas sem a verdadeira profundidade, sabedoria ou inspiração dessa história. Embora demonstre muitas maneiras de expressar suas emoções, a história de Exupéry não é sentimental. Ao mesmo tempo, apesar de apresentar boa qualidade didática e aforismos, ela não é uma pregação. Trata-se de um ensinamento, uma fábula de importância eterna, escrita em linguagem bem poética – e ao mesmo tempo acessível aos leitores do século 21.

O autor permaneceu fiel à cosmovisão das narrativas tradicionais; embora faça afirmações diretas, a história está repleta de elementos não ditos e inexprimíveis. A presença do “maravilhoso” no livro é mágica e natural; poderes místicos e princípios de ordem brilham por todo o enredo. E o conflito principal não acontece entre personagens, mas sim entre a ignorância e o conhecimento.

O romance toca e sacode tanto os leitores ateus como os religiosos. Os acontecimentos parecem ser fáceis de ser compreendidos e seguidos (embora a narrativa não seja linear), mas, assim como acontece com a Bíblia ou com outros textos religiosos, eles têm um significado mais elevado para os seguidores da sabedoria antiga, a Doutrina Universal – enfim, para os viajantes da “estrada real”. Como as mesmas palavras, expressões e símbolos são usados tanto ​​pela espiritualidade em um nível externo como por grupos religiosos que seguem o caminho interno, em O Pequeno Príncipe a diferença (ou o “grau superior”) é conquistada pela clareza, poder e autenticidade do texto. É o que transparece e cintila em toda a história e embeleza o deserto das letras.

O nome do protagonista é bastante enigmático: “o Pequeno Príncipe”. É assim que o piloto (um dos personagens principais e narrador da história) se refere a esse homem pequeno, frágil e de cabelos dourados. É o Pequeno Príncipe quem o desperta ao amanhecer, depois de seu pouso de emergência no deserto, pedindo que ele lhe desenhe um carneiro. Esse nome – “o Pequeno Príncipe” – não tem explicação. Não se refere a um título mundano, mas sim a uma qualidade espiritual, uma posição divina, que o piloto terrestre em perigo reconhece nessa criatura tão peculiar e de pureza etérea. Quando criança, o narrador costumava ser uma alma sensível, criativa e de mente aberta, assim como o Pequeno Príncipe. Quando adulto, ele perdeu esses traços libertadores; e seu desejo de despertar essas qualidades pode ter sido um impulso para que se tornasse um piloto. Seu esforço deve ter sido prejudicado, pois, durante o voo mecânico, ele foi forçado a fazer um pouso de emergência no meio do deserto, devido a um problema no motor (que é o “coração” do avião). Acontece que, um ano antes, o Pequeno Príncipe também chegou à Terra devido a um “pouso forçado”.

A história de vida do homenzinho vai se desenrolando lentamente enquanto ele deixa de responder às perguntas dirigidas a ele ou ao seu passado. Ele só responde espontaneamente e no devido tempo – embora de maneira indireta e seletiva. Mas nunca deixa de fazer suas perguntas quando quer saber alguma coisa – e só para de perguntar quando recebe uma resposta adequada.

Essa assimetria pode ser explicada por uma relação adulto-criança. O fato de o Pequeno Príncipe ser criança é afirmado pelo narrador apenas uma vez (na fala da raposa): “Para mim, ainda não passas de um menino que é como cem mil outros meninos”. Mas o personagem principal é, na verdade, uma alma infantil de pureza imaculada. Pode parecer estranho, mas essa relação desigual se assemelha a uma conexão mestre-aluno. E nessa história não é o adulto, o piloto, quem está ensinando.

É claro que não podemos separar precisamente os dois papéis, pois o mestre também aprende com seu aluno e com os outros. Para descobrir a verdadeira natureza do relacionamento entre eles, podemos imaginar o mestre à frente de seu aluno no caminho espiritual – mesmo que, na verdade, eles estejam caminhando lado a lado. Os dois papéis também podem ser interpretados metaforicamente como sendo partes, características e oportunidades da consciência de um ser – e esta abordagem é a mais importante e madura. Mas é mais fácil acompanhar suas histórias de vida se olharmos para eles como dois seres que são conectados, mas que estão separados. O Pequeno Príncipe representa o espírito puro que o piloto (talvez apenas inconscientemente) anseia por alcançar.

Depois desse encontro tão peculiar, seus destinos estão conectados, o que abre espaço para várias comparações e paralelos. O foco principal da narrativa pode ser melhor descrito pelo termo religio: no sentido de voltar, ligar-se, reunir-se, voltar a unir-se à origem divina. Suas seções principais podem ser definidas por Fé, Esperança e Amor, que crescem das sementes plantadas no solo suave da descrença.

A história dos dois personagens – e sua análise – começa e termina com o carneiro invisível desenhado dentro da caixa. A narrativa não explica por que o desenho desse animal é necessário.

O Pequeno Príncipe não se contenta com nenhuma das figuras que o piloto desenha para ele, mas aceita imediatamente a caixa quando o homem afirma que o carneiro está lá dentro. Por que ele faz isso? Ingenuidade, confiança incondicional? Uma visão extraordinária, uma habilidade mágica para ter tanto entusiasmo e animação? Tudo isso é o mistério que caracteriza toda a história. Voltarei ao carneiro e à importância de seu papel no final desta análise.

 

Continua na parte 2

 

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