the little prince

O Pequeno Príncipe – a história do retorno – Parte 3

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PODCAST

A conversa entre os dois personagens revela entendimento mútuo e uníssono. Quando o Pequeno Príncipe pergunta onde estão as pessoas, uma vez que se sente tão só no deserto, a cobra diz: “Também é solitário entre os homens”. Não há nada a dizer sobre isso, pois foi exatamente isso que o homenzinho vivenciou ao encontrar os habitantes dos asteroides que visitou. Parece que a cobra não apenas declara uma verdade geral, mas, de alguma forma, subtraiu sua resposta do visitante peculiar. Enquanto a serpente se enrosca em torno do tornozelo do Pequeno Príncipe, ela nota – de uma forma bastante horripilante – que pode enviar qualquer pessoa de volta à Terra com seu toque (presas). Mas o homenzinho frágil é tão puro que a cobra demonstra misericórdia. Ela se oferece para ajudá-lo a voltar ao seu planeta. O Pequeno Príncipe não tem dúvidas sobre a natureza dessa ajuda. O entendimento completo é revelado enquanto eles se sentam tão silenciosamente quanto o deserto, tendo o deserto do Pequeno Príncipe tremeluzindo acima deles.

São como uma “flor sem valor algum”, informa ela ao protagonista, que nunca sabe onde encontrar os homens: “O vento os carrega. Eles não têm raízes, o que lhes torna a vida muito difícil.”. Nenhuma resposta vem do minúsculo andarilho: ele apenas diz adeus. Deve ser estranho para ele ter raízes que crescem em direção ao céu.

Ele chega a uma estrada que leva a um jardim de rosas. Há cinco mil flores lá, e todas se parecem com sua rosa “única entre todas”, que ele considerava única. Angustiado, ele cai em lágrimas.

E então a raposa aparece. Não é por acaso que chega ali mesmo, perto das rosas. A raposa e as rosas – especialmente a rosa do Pequeno Príncipe – têm uma ligação. Elas estão conectadas por suas cores fortes, seus traços femininos e suas personalidades. Além delas e da “flor sem valor algum”, todos os outros personagens da história são homens ou seres masculinos. A vida e o pensamento da rosa e da raposa representam a necessidade e as dificuldades da afiliação e do pertencimento, e o desejo de ser domesticado e se tornar completo. Elas podem ser tentadas a manipular outras pessoas ou fazer um espetáculo para alcançar seu objetivo. Mas, se reconhecermos nossos poderes mágicos, se formos capazes de controlá-los e utilizá-los para propósitos puros e nobres, esses truques não serão necessários.

Quando o Pequeno Príncipe encontra a raposa, ele apenas ouve uma saudação, mas não vê ninguém. Ele se vira, mas ainda não consegue ver a raposa. Só consegue vê-la quando a voz lhe diz: “Estou bem aqui, debaixo da macieira.”. Tudo isso prevê que o encontro com a raposa mudará (“converterá”) a vida e o modo de pensar do Pequeno Príncipe, e o levará à completude (macieira).

A raposa demonstra para ele o valor de sua rosa e o faz entender a maneira como ele poderia se conectar com ela. Não é de admirar que a raposa saiba de tudo isso: ela representa a rosa, o reino interior da rosa. Ele traduz a fragrância da rosa em palavras.

Antes de lhe oferecer um segredo como presente, a raposa aconselha o Pequeno Príncipe a voltar às cinco mil rosas do jardim. O número cinco mil pode ser rastreado até o número cinco – o pentagrama mágico, que é o símbolo da ordem divina e do renascimento. As proporções e a estrutura da rosa também estão conectadas ao número cinco.

As palavras do Pequeno Príncipe dirigidas às cinco mil rosas parecem ser bastante dolorosas. Ele ainda não se recuperou de seu desapontamento com o fato de que o valor de sua rosa “única” foi (aparentemente) questionado pelo jardim. Porém, a fala do protagonista não é egoísta, excludente ou degradante, mas sim um elogio à Rosa Eterna e Única. Uma ao invés de muitas, interna ao invés de externa: a Rosa do Coração. Se ele puder se unir a ela, todas as rosas serão Uma e Única para ele: e ele será responsável por todas elas!

Só depois disso o Pequeno Príncipe recebe as famosas palavras de iniciação da raposa:

 

“Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos”

“É o tempo que você gastou com sua rosa que a torna tão importante”

“Você é responsável por sua rosa ...”

 

Aqui começa a religio, e, mais especificamente, a fase da fé.

 

Após o encontro com a raposa, o Pequeno Príncipe encontra duas pessoas cuja ocupação e visão de mundo são semelhantes às das que vivem nos asteroides.

O primeiro é um manobrista ferroviário. Desde que conheceu a raposa, a perspectiva e a vida do protagonista mudaram: ele segue “novos trilhos”. O estrondo e “rugidos de trovão” feitos por trens desviados de uma plataforma para a outra são o completo oposto do vazio do deserto e do lento silêncio. O destino dos veículos parece bastante fútil para o agente ferroviário. Para ele, o significado e o poder estão na capacidade de enviar trens a diferentes plataformas. Sua tarefa mecânica assemelha-se à do acendedor de lâmpadas: parece ser seu equivalente na Terra. O maquinista também espelha o rei, pois também compartilha uma pérola de sabedoria em relação aos passageiros: “Ninguém nunca fica satisfeito onde está”. Essas palavras devem afetar profundamente o Pequeno Príncipe, mas, de acordo com a história, ele não reage a elas. Provérbios e máximas que têm valor de ensinamento podem vir de fontes imprevistas, se formos capazes de notar e dar-lhes atenção.

O outro personagem é um comerciante que vende pílulas que podem matar a sede. Com um comprimido, pode-se “economizar” uma hora que, de outra forma, teria sido gasta em bebida. O vendedor desse produto aparentemente útil assemelha-se ao empresário e ao cientista dos asteroides.

Assim, os três últimos personagens aparentemente úteis dos asteroides são evocados nesses dois indivíduos terrestres. A terceira pessoa que o Pequeno Príncipe encontra na Terra é o piloto, que está tentando consertar o motor de seu avião no deserto, longe de todos os outros. Ele é alguém que merece o tempo e a amizade do protagonista. Isso é comprovado pelo fato de que, quando o Pequeno Príncipe pede ao piloto que lhe desenhe um carneiro, o homem tenta, mas só realiza o desejo do protagonista na quarta tentativa, quando usa uma técnica não convencional: ele desenha uma caixa dizendo que o carneiro está lá dentro. Essa foi uma lição que o homem aprendeu: como um adulto típico, ele apenas procurou fugir da tarefa; mas, por causa do Pequeno Príncipe, ele teve de enfrentar a lacuna entre seu eu puro de criança e seu eu adulto com foco na praticidade.

A amizade entre o protagonista e o piloto vai se aprofundando: eles aprendem cada vez mais um com o outro. Eles têm dois mundos separados, mas suas raízes são as mesmas. Essa base compartilhada fica cada vez mais clara e – além de alguns exemplos de imprudência, desacordo e raiva – leva ao entendimento mútuo e à solidariedade.

Quando o piloto fica sem água, o comportamento deles é o melhor exemplo do fato de que eles vêm de mundos diferentes. Com medo de morrer, o piloto dá uma resposta evasiva e irritada ao Pequeno Príncipe, a quem as necessidades físicas de comer e beber obviamente não afetam (mas dormir, sim). O protagonista entende a gravidade (e o valor didático) da situação, então afirma estar com sede também, e sugere que saiam em busca de um poço. A ideia parece absurda para o piloto, mas, como ele não tem um plano melhor, eles partem. Depois de horas vagando, a noite cai. Os personagens sentam-se para descansar sob o céu estrelado. Quando o piloto pergunta se o Pequeno Príncipe está realmente com sede, o homenzinho diz: “A água também pode fazer bem ao coração ...”.

O piloto não o entende, mas é revelado que existem dois tipos de sede: uma do corpo e outra da alma. Os dois personagens estão com sede de maneiras diferentes – eles precisam de um poço que possa fornecer água para ambos. Eles estão cansados. Antes que o Pequeno Príncipe adormeça, proclama dois pensamentos importantes:

 

“As estrelas são lindas, por causa de uma flor que não se vê”

“O que torna o deserto bonito é que em algum lugar ele esconde um poço”

 

São duas ideias análogas. O segundo conceito atinge o piloto, e ele expressa sua concordância. Enquanto ele olha com ternura o rosto do príncipe adormecido – o espelho de sua alma – ele entende que “O que é mais importante é invisível ...”.

Ele percebe e compreende que o que é diferente, o que existe em um nível superior – o que não vem deste mundo – é invisível, mas brilha no visível e o torna mais belo. Enquanto caminha com o Pequeno Príncipe adormecido em seus braços, ele encontra o poço ao raiar da aurora – quando nasce a luz. Aqui começa a fase de Fé para o piloto, e de Esperança para o Pequeno Príncipe.

 

Continua na parte 4

 

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