Montsegur, Cathars

Pira em Montségur: 777 anos atrás – Parte 1

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“O rebelde é esquecido e o vencedor escreve a história” (Ernst Bloch).

Em 1320, em um vilarejo situado no sopé dos Pirineus, no vale do Ariège, um inquisidor registrou a conversa que teve com uma mulher católica chamada Azaleis. Azaleis disse:

Guillelme, de pé perto do fogo, disse – e todos nós ouvimos – que os hereges eram boas pessoas e que eles eram melhores com a sua fé do que nós católicos éramos com a nossa fé. Ela também disse que nossa Igreja os perseguia por terem demasiado poder e que, se não os perseguisse, os hereges seriam mais numerosos do que todos nós.1

 

“Onde há liberdade, há poder” (Michel Foucault).

A natureza multifacetada do poder e seus efeitos desempenharam um papel essencial na vida dos cátaros – em parte como uma oportunidade e em parte como um trágico enredamento do destino. No contexto das circunstâncias da Idade Média, eles percebiam o poder em seus sentimentos, pensamentos e ações como uma interação entre luz e trevas.

Começou na virada do milênio...

O Império romano carolíngio havia se desintegrado. As forças desencadeadas provocaram, com inspiração nas imagens do Apocalipse de João, um clima de medo e catástrofe. As Escrituras foram interpretadas considerando que, no ano mil, Satanás surgiria do abismo e lançaria a Terra no caos. Foi nesse período que surgiram os primeiros cátaros e, concomitantemente, as primeiras piras ou fogueiras na Europa (Orleans 1022, Montforte e Turim 1025).

 

A Reforma Gregoriana

A partir de meados do século XI, a Igreja romana instituiu uma reforma de suas estruturas religiosas que, sob o papa Gregório VII, é conhecida como “Reforma Gregoriana” (1073–1085). Essa reforma trouxe a reorganização do cristianismo eclesiástico. Nasceram novas ordens religiosas, como os beneditinos (Cluny) e cistercienses (Citaux), que viviam uma espiritualidade em seus mosteiros isolados, sem envolvimento do povo. Posteriormente, o papa consolidou o poder eclesiástico e secular como representante de Cristo no mundo cristão, e o chamou de “Jerusalém celeste”. Essa teocracia papal legitimou uma ideologia de luta. Os cistercienses, liderados por Bernard de Clairvaux, invocaram uma guerra santa contra os infiéis. Nesse contexto, Bernard elaborou uma justificativa teórica para a perseguição de cristãos que praticavam sua fé de forma diversa, e a quem chamava hereges. Esse foi o início de uma "cultura de perseguição”.2

A partir de agora, há duas igrejas: "... uma que foge e perdoa (Mt 10:23) e uma que possui e profana; a que foge e perdoa e segue o caminho reto dos apóstolos não mente e não engana; e a igreja que possui e profana é a Igreja romana" (Pierre Authier, Bom Homem).3

O ser humano da Idade Média no século XIII era fundamentalmente diferente do ser humano de hoje. Ele não conseguia se compreender como uma unidade de corpo, alma e espírito. Seu corpo parecia pertencer a um poder exterior e diabólico. Como indivíduo, ele foi reduzido a uma alma entre dois abismos: de um lado, havia um mundo físico satânico, e do outro lado, o divino-espiritual. Para os crentes comuns, não havia acesso direto a este último, visto que a Igreja representava para ele o divino neste mundo, sendo, portanto, a mediadora. Isso suprimia suas próprias faculdades espirituais e inteligência. A alma, assim desestabilizada, vacilava entre “hipersensibilidade e perigosa emotividade“ e poderia alternar da misericórdia compassiva à raiva cruel de um momento para o outro.4

“Antes que uma transformação possa ocorrer no mundo, ela deve primeiramente ser realizada na alma humana” (Tolstoy).

Os cátaros desempenharam um papel de liderança na evolução espiritual do ser humano naquela época crítica.

Eles experimentavam a vivência de Cristo em suas próprias almas e se viam como sucessores dos apóstolos. Eles consideravam que Cristo jamais se manifestou em um corpo físico, e sim como poder, no sentido divino-espiritual da palavra. Portanto, como precursores da liberdade espiritual, eles experimentavam o poder do pensamento livre e independente. Suas almas assumiam, com soberania, o papel de mediadoras entre corpo e espírito. Os cátaros permitiam aos crentes que recebessem o consolamentum – o único sacramento de sua igreja, o batismo do Espírito Santo através da imposição de mãos.5 O consolamentum era um ritual de iniciação na Ordem religiosa dessa igreja, considerado capaz de redimir um moribundo de seus pecados e conduzir a sua alma a um “bom fim”: a unidade original entre alma e espírito. A perspectiva de um “bom fim”, uma morte que possibilitaria a salvação, era o maior anseio do povo dessa época. “Estamos na Idade Média [...], todos creem em Deus. Todos almejam salvar sua alma. Dessa maneira, a palavra ‘cultura’ significa ter acesso à fé que salva”.6

Caminho da verdade e da justiça – Era assim que os Bons Homens chamavam o seu modo de viver (Bons Homens, Bom Homem ou Boa Mulher era o nome dado aos irmãos/irmãs da ordem. Somente os inquisidores usavam o termo "Perfeitos" para distingui-los dos fiéis). Eles viviam em comunidades de mulheres e homens como seguidores dos apóstolos, em casas (mosteiros abertos), seguindo regras religiosas restritas e, ao mesmo tempo, cultivando um intercâmbio vivente com o povo local. Por isso, as casas eram situadas no meio dos povoados, “castra”.7 Todas as distinções de classe do sistema feudal pareciam ter sido abolidas: estava-se “entre cristãos”. As casas formavam a célula básica do catarismo. Não eram apenas locais de residência e trabalho para os membros da ordem e para prepará-los para o noviciado da ordem, mas também eram locais para educação de crianças e jovens, onde ofereciam comida, abrigo, assistência e cuidados às pessoas necessitadas. Todos podiam participar nas cerimônias religiosas públicas dos cátaros; durante muito tempo não se falou de heresia. “A presença dos Bons Homens em meio à íntima rede de relações sociais é uma das fortes características de suas igrejas, bem como de seu grande sucesso”.8

Os cátaros (esta palavra não foi usada na Idade Média, sendo introduzida apenas na historiografia do século XX) não tiveram igrejas ou capelas feitas com pedra ou madeira. Sua igreja – assim como a Igreja cristã primitiva – consistia em uma comunidade reunida em torno de um bispo eleito. Eles diziam: “O coração do homem é a verdadeira igreja de Deus”.9

“A presença das Boas Mulheres contribuiu para ancorar a religiosidade cátara profundamente no coração pulsante da sociedade” (Anne Brennon).

Os senhores feudais aristocratas da Occitânia eram simpatizantes dos cátaros e de sua igreja. Por serem, em geral, anticlericais, eles logo perceberam que compartilhavam um interesse comum com os cátaros. Ambos estavam ocupados em preservar a liberdade religiosa e cultural do país. A Occitânia, hoje Languedoc, era um dos raros países cujas fronteiras eram formadas apenas por sua língua, a língua d’oc – a língua da Occitânia.  Isso foi acompanhado por uma alta cultura de linguagem (poesia) e música, bem como pela abertura humana e tolerância religiosa. Certamente, os senhores feudais estavam também interessados em preservar a riqueza do país e suas propriedades. Via de regra, eles próprios não aderiram à religião cátara. No entanto, sob a influência de suas esposas e famílias, que foram atraídas por essa religião e abraçaram a “nova” fé, eles se tornaram os mais poderosos protetores dos cátaros, ainda que estes fossem críticos do sistema feudal. Esse sucesso, que deu aos cátaros o poder de um grupo forte e unificado,10 devia-se certamente, acima de tudo, à estrutura transparente, flexível e descentralizada da Igreja dos cátaros, na qual as mulheres exerciam funções em pé de igualdade.

(continua na parte 2)

 

  • 1. Anne Brenon, "Os Cátaros", Paris 2007, p. 272
  • 2. Ibid., p. 46
  • 3. Ibid., p. 27/28
  • 4. René Nelli, "A vida cotidiana dos cátaros no século XIII", Paris1969, p. 15/16.
  • 5. Anne Brenon, "Dicionário dos Cátaros", "Os Dicionários essenciais". Milão, S. 61.
  • 6. Anne Brenon, "Cátaros – A contra investigação", Paris 2008, S.84.
  • 7. Anne Brenon, "Dicionário dos Cátaros", p. 51.
  • 8. Anne Brenon, "Os Cátaros", p. 86.
  • 9. Anne Brenon, "Dicionário dos Cátaros", p. 81.
  • 10. Anne Brenon, "Os Cátaros", S. 86.
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